O político moçambicano Venâncio Mondlane disse hoje à Lusa não acreditar na versão partilhada pelo Ministério Público (MP) sobre o duplo homicídio dos seus apoiantes, caso que já conta com dois detidos.

“Claro que não acredito. Isso é a mais flagrante caricatura do estágio de podridão que a nossa Justiça alcançou”, limitou-se a dizer Venâncio Mondlane, afirmando estar ainda a “digerir a informação”.
Numa publicação na sua página da rede social Facebook, o político afirmou que as autoridades estão a refugiar-se em “pessoas mortas” no caso do assassínio de Elvino Dias e Paulo Guambe, após o Ministério Público anunciar “várias linhas” de investigação, uma das quais que associa também o caso a um condenado que morreu na cadeia em 2025.
“Que vergonha. Agora refugiam-se em acusar pessoas mortas que não se podem defender. Abutres”, escreveu Mondlane.
O procurador-geral moçambicano disse hoje que foram detidas duas pessoas, em três suspeitos ouvidos, no caso do assassínio de Elvino Dias e Paulo Guambe, e admitiu “grandes desafios” face a “várias linhas” de investigação.
“Até este momento foram identificados e ouvidos três suspeitos, dois dos quais estão recluídos no estabelecimento penitenciário preventivo de Maputo”, disse o procurador-geral da República de Moçambique, Américo Letela, ao responder, no parlamento, a perguntas dos deputados.
Elvino Dias, conhecido em Moçambique como “advogado do povo”, pelas causas sociais e apoio que prestava sobretudo aos mais desfavorecidos, morreu numa emboscada, em 19 de outubro de 2024, crime sem explicação e associado desde então a motivações políticas.
Na altura era assessor jurídico de Venâncio Mondlane e o carro que conduzia, no centro de Maputo, foi intercetado por duas viaturas, de onde saíram homens armados que fizeram dezenas de disparos, atingindo mortalmente, além de Elvino Dias, de 45 anos, também Paulo Guambe, mandatário do Podemos, partido que apoiou aquele candidato presidencial nas eleições realizadas dias antes.
O procurador-geral da República de Moçambique, que apresentou na quarta-feira ao parlamento a informação anual do Ministério Público referente a 2025, admitiu que a investigação ao duplo homicídio enfrenta “grandes desafios” e “mostra-se complexa” devido as várias linhas de investigação em curso, pedindo paciência.
Segundo Letela, Elvino Dias foi assassinado após ter, antes, sofrido um atentado no distrito de Alto Molócuè, na província da Zambézia, centro do país, e estava também supostamente envolvido na falsificação de um atestado de óbito de uma cidadã “companheira de Nini Satar”, à data dos factos envolvida num rapto, e, na altura do homicídio, o advogado tinha começado a colaborar com as autoridades para esclarecer o caso.
O procurador-geral explicou que a simulação da morte da mulher, encabeçada por Nini Satar, um dos condenados pela autoria do homicídio do jornalista moçambicano Carlos Cardoso e que morreu na cadeia em março de 2025, tinha sido feita numa clínica da África do Sul, um processo do qual Elvino Dias alegadamente participou.
Américo Letela disse que o julgamento do caso de falsificação de documentos e simulação de morte tinha sido agendado para 20 de outubro de 2024, com o duplo homicídio a ocorrer um dia antes.
“Somos surpreendidos com essa informação. Nós, como investigadores, aquela aparição dele, desafiando também outras pessoas que estavam envolvidas dentro do processo, que (…) agora queria contar a verdade, não é uma linha que (…) podemos descartar”, disse.
O Ministério Público moçambicano investiga também o duplo homicídio associado á violência eleitoral que se seguiu após a divulgação dos resultados parciais das eleições de outubro de 2024, rejeitados por Venâncio Mondlane.
Lusa

