Trabalhadores angolanos que exercem funções na “Cidade da China”, complexo comercial localizado em Luanda, denunciaram alegados maus-tratos, agressões físicas e práticas laborais abusivas por parte de responsáveis e funcionários chineses, num caso que está a gerar forte indignação nas redes sociais e preocupação junto da opinião pública.

Um dos episódios mais recentes, ocorrido a 23 de Janeiro, ganhou ampla repercussão após a divulgação de imagens que mostram uma jovem funcionária a ser agredida por um colega, no interior de uma das lojas do complexo. Nas imagens é possível ver o momento em que a trabalhadora é pontapeada, apesar das tentativas de outros funcionários para pôr fim à agressão.
Em declarações à imprensa, a vítima relatou que o conflito teve origem num desentendimento relacionado com a sua refeição. Segundo explicou, um colega terá despejado a sua comida, levando-a a apresentar queixa à responsável da loja. Após a intervenção da chefia, o colega terá reagido com hostilidade, passando a ameaçá-la e, posteriormente, agredi-la fisicamente.
A jovem afirmou ainda que, ao tentar defender-se, chegou a ameaçar o agressor com uma tesoura, momento que terá precipitado a violência. “Ele agarrou-me pelo uniforme e começou a agredir-me”, contou, visivelmente abalada.
Por sua vez, o assistente jurídico da loja apresentou uma versão diferente dos factos, classificando inicialmente o incidente como uma “brincadeira mal interpretada”. Mais tarde, reconheceu que houve agressões, explicando que, numa primeira fase, a direcção não tinha pleno conhecimento da gravidade do ocorrido.
De acordo com o advogado, o caso foi participado às autoridades policiais, tendo o agressor sido conduzido a um comando policial, onde prestou declarações. O responsável jurídico assegurou ainda que o funcionário chinês mostrou arrependimento, pediu desculpas à vítima e se comprometeu a indemnizá-la, alegadamente para salvaguardar o seu bom nome.
A direcção da loja garantiu que a trabalhadora não será despedida nem alvo de retaliações, assegurando que continuará a exercer funções normalmente. No entanto, a vítima revelou que lhe foi pedido apenas para “ir para casa”, após assinar um documento cujo conteúdo, segundo disse, não lhe foi devidamente explicado, o que levanta dúvidas quanto à transparência do processo.
A situação começa a ser vista como preocupante, sobretudo por se tratar de um complexo comercial de grande dimensão. De acordo com a administração, a “Cidade da China” conta com mais de 30 lojas e emprega mais de cinco mil trabalhadores de várias nacionalidades, sendo a maioria angolana.
Organizações da sociedade civil e defensores dos direitos laborais defendem uma intervenção mais firme das autoridades competentes, nomeadamente da Inspecção-Geral do Trabalho e do Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, para apurar responsabilidades e garantir o cumprimento da legislação laboral angolana, bem como a protecção da dignidade e integridade física dos trabalhadores.
Palavras-chave: Cidade da China, trabalhadores angolanos, maus-tratos, agressões, direitos laborais, Luanda, Inspecção do Trabalho, violência no local de trabalho.

