Quarta-feira, 26 de Agosto, 2026

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Adalberto critica US$ 316,8 milhões na Chicala: “Angola precisa de produzir, não de palácios”

A inauguração do Centro de Convenções da Chicala, em Luanda, com um custo anunciado de US$ 316,8 milhões, está a gerar um debate sobre as prioridades do investimento público em Angola.

Para Adalberto, o montante aplicado numa única infraestrutura poderia ter sido utilizado de forma diferente, com maior impacto directo na vida das populações e na transformação da economia nacional.

Angola precisa de produzir, não de palácios”, defende, ao apresentar uma proposta alternativa para a utilização de aproximadamente US$ 316,8 milhões.

Centro de Convenções da Chicala

A posição não significa, segundo a proposta, ser contra infraestruturas ou contra a realização de grandes projectos. O ponto central é a necessidade de avaliar o retorno económico e social de cada investimento público.

Uma alternativa de US$ 316,8 milhões

Na visão apresentada por Adalberto, os recursos poderiam ser distribuídos por sectores considerados estratégicos para o desenvolvimento económico e social do país.

US$ 70 milhões para educação

A proposta prevê US$ 70 milhões para educação, destinados à construção e reabilitação de escolas, formação de professores, criação de laboratórios e oficinas e expansão do ensino técnico-profissional.

A ideia seria aproximar a formação das necessidades reais da economia, criando escolas e centros tecnológicos ligados às empresas e aos sectores produtivos.

“Uma obra pode impressionar durante uma inauguração. Uma escola pode transformar uma vida inteira”, sustenta.

US$ 35 milhões para a saúde

Outros US$ 35 milhões seriam destinados ao reforço dos hospitais municipais e centros de saúde.

Entre as prioridades estariam a aquisição de equipamentos, reforço das maternidades, laboratórios, serviços de diagnóstico, medicamentos essenciais e formação de técnicos de saúde.

A proposta defende que o objectivo não deve ser apenas construir mais hospitais, mas garantir que os existentes tenham condições para funcionar adequadamente.

US$ 50 milhões para uma revolução agroindustrial

A agricultura receberia US$ 50 milhões, com foco na transformação do produtor rural num agente integrado numa cadeia económica.

O financiamento poderia apoiar pequenos e médios agricultores, sistemas de irrigação, mecanização, armazéns, centros de frio e melhoria das estradas rurais.

A proposta inclui ainda a criação de unidades de transformação de produtos como milho, mandioca, tomate, frutas, café, cacau, algodão, leite e carne.

A lógica é apresentada de forma simples:

O agricultor produz → a indústria transforma → o comércio distribui → o consumidor compra produto nacional.

Para Adalberto, é desta forma que a agricultura pode deixar de ser vista apenas como actividade de subsistência e passar a funcionar como uma verdadeira cadeia de criação de riqueza.

US$ 35 milhões para empresários, startups e indústria

A proposta reserva ainda US$ 35 milhões para um fundo nacional de financiamento competitivo destinado a jovens empreendedores, startups, cooperativas e pequenas e médias empresas.

O financiamento deveria, segundo a proposta, obedecer a critérios transparentes e não a relações políticas.

Sem cartões partidários. Sem empresários escolhidos pelo poder. Sem crédito político.

Os projectos seriam avaliados pela sua viabilidade económica, capacidade de execução, potencial de criação de emprego e capacidade de gerar produção nacional.

A intenção seria reduzir a dependência dos jovens em relação ao Estado enquanto principal empregador e criar condições para que estes possam também tornar-se empregadores.

US$ 15 milhões para formação tecnológica e profissional

A proposta prevê US$ 15 milhões para formação tecnológica e profissional, abrangendo áreas como programação, inteligência artificial, electricidade, mecânica, soldadura, construção civil, energia solar, agricultura moderna, manutenção industrial e logística.

Mas há uma condição considerada fundamental: a formação deve estar ligada ao mercado de trabalho.

A proposta rejeita a formação orientada apenas para a produção de certificados e defende cursos concebidos em articulação com empresas e sectores produtivos.

US$ 36,8 milhões para água, estradas e energia

Outros US$ 36,8 milhões seriam destinados a pequenas e médias infraestruturas capazes de produzir efeitos directos nas comunidades.

Água potável, energia, estradas secundárias e terciárias e infraestruturas para zonas agrícolas estão entre as prioridades apontadas.

A proposta considera que uma estrada rural capaz de ligar um produtor ao mercado pode ter um impacto económico muito superior ao seu custo inicial, ao permitir reduzir perdas, melhorar o escoamento e aumentar o rendimento dos agricultores.

US$ 75 milhões para uma nova política de refinação

Uma das componentes mais ambiciosas da proposta seria a aplicação de US$ 75 milhões numa nova política de refinação.

Angola possui importantes reservas de petróleo, mas continua vulnerável à importação de combustíveis e à limitada capacidade de transformação interna.

Adalberto defende que o país deveria estudar a possibilidade de desenvolver três projectos de refinação modular, estrategicamente distribuídos pelo Norte, Leste e Sul.

A proposta, contudo, não defende que estes projectos sejam construídos sem estudos prévios.

Cada refinaria deveria ser precedida de estudos de viabilidade relacionados com a disponibilidade de crude, localização, logística, mercado, sustentabilidade financeira e impacto ambiental.

A experiência da Nigéria é apontada como uma referência que merece ser estudada, particularmente o desenvolvimento faseado da refinaria modular da Waltersmith.

A ideia não seria copiar o modelo nigeriano, mas perceber como projectos industriais podem ser desenvolvidos por fases e com diferentes fontes de financiamento.

Estado como catalisador, não necessariamente como único financiador

Outro princípio defendido é que o Estado não precisa necessariamente de financiar sozinho grandes projectos industriais.

Pode participar através de capital estratégico, garantias, infraestruturas e regulação, enquanto o sector privado e os bancos de desenvolvimento mobilizam parte significativa do financiamento.

Desta forma, o dinheiro público pode funcionar como capital catalisador, atraindo investimento adicional e criando capacidade produtiva.

A questão central: gastar ou multiplicar?

A proposta apresentada por Adalberto não pretende ser uma “conta mágica”, mas uma demonstração de como o mesmo montante pode ser encarado de diferentes formas.

Uma grande infraestrutura pode gerar actividade económica durante a sua construção e operação.

Mas investimentos simultâneos em educação, saúde, agricultura, indústria, formação profissional, infraestruturas e energia podem criar múltiplos pontos de geração de riqueza.

Uma escola cria capital humano.

Uma estrada reduz custos logísticos.

A irrigação aumenta a produção.

Uma fábrica acrescenta valor.

Uma empresa cria empregos.

A formação profissional aumenta a produtividade.

Uma refinaria reduz a dependência externa e pode estimular uma cadeia industrial.

É neste contexto que surge a crítica de Adalberto à aplicação dos US$ 316,8 milhões na Chicala.

O debate, na sua perspectiva, não deveria limitar-se a saber se Angola precisa ou não de um Centro de Convenções.

A questão fundamental é saber qual é o maior retorno económico e social que o Estado pode obter de cada dólar investido.

No fundo, trata-se de uma discussão sobre prioridades.

Não se trata de uma conta mágica. É uma demonstração de princípio.

Pode-se gastar centenas de milhões de dólares numa única obra.

Ou pode-se utilizar o mesmo recurso para criar escolas, hospitais, empresas, fábricas, agricultores empresariais, técnicos especializados, estradas e capacidade industrial.

Para Adalberto, a diferença entre as duas abordagens resume-se numa questão fundamental:

“Esta é a diferença entre gastar o dinheiro do povo e governar.”

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