A polícia queniana dispersou hoje centenas de manifestantes que se concentraram em Nairobi e noutras cidades do Quénia, por ocasião do segundo aniversário dos protestos antigovernamentais, nos quais dezenas de pessoas perderam a vida às mãos das forças da ordem.

Ao longo do dia, a agência espanhola EFE constatou a detenção, no centro de Nairobi, de pelo menos nove pessoas, mas os meios de comunicação locais relataram mais detenções noutras cidades.
Outras marchas e um forte destacamento de forças de segurança puderam ser observados em mais cidades do país, como Mombaça (sudeste), Kitengela (perto da capital), Kitale (noroeste) ou Wote (sul), enquanto as ruas permaneceram desertas noutras localidades.
“Estamos aqui pelas vidas que perdemos em (…) 2024. Perdemos muitas pessoas que tinham saído para tentar falar com o Governo e para que este nos ouvisse, mas, em vez disso, o Governo decidiu matar-nos, matar os nossos irmãos, as nossas irmãs, os nossos filhos e os nossos amigos”, declarou, em Nairobi, à EFE, Simon Kagiri, de 29 anos.
“Não podem matar-nos e, ao mesmo tempo, querer liderar-nos”, salientou o jovem, que gere uma banca de roupa em segunda mão.
Para além do bloqueio das principais estradas de acesso ao centro de Nairobi e da instalação de postos de controlo, a polícia — por vezes acompanhada por cães ou a cavalo — agiu rapidamente para dispersar qualquer aglomeração, por vezes com gás lacrimogéneo e até recorrendo a um apito ensurdecedor de grande intensidade, enquanto quase todos os estabelecimentos comerciais permaneceram fechados.
Um grupo de cerca de 50 pessoas, liderado por políticos da oposição, como o ex-vice-presidente Kalonzo Musyoka, a ex-ministra da Justiça Martha Karua ou o ex-presidente do Supremo Tribunal David Maraga, marchou por uma das principais avenidas da cidade, exibindo bandeiras quenianas e rosas vermelhas e brancas.
Também faziam parte do grupo familiares das vítimas, como Gillian Munyao, mãe de Rex Masai — o jovem que, aos 29 anos, foi a primeira vítima mortal das manifestações de 2024. Erguiam cartazes com mensagens como “O dinheiro não pode substituir vidas” ou “Os jovens merecem trabalho, não balas”.
“Vim prestar homenagem ao meu filho. Amava-o imenso (…). Ruto, o que o senhor está a fazer é terrível para todas as mães do mundo”, declarou à EFE, com a voz embargada, Phoebe Maina, mãe de Kevin Odhiambo, que morreu aos 17 anos alvejado a 25 de junho de 2024, numa mensagem dirigida ao Presidente queniano, William Ruto.
O grupo avançou em direção ao Parlamento para depositar ramos e coroas de flores em memória dos falecidos.
Não conseguindo chegar ao Parlamento, acabaram por colocar as flores e as bandeiras nas cercas de arame que impediam o acesso à rua onde se situa a sede do poder legislativo, num ambiente em que a presença policial era muito superior à dos manifestantes, com agentes à civil e fardados.
“Todos estes polícias assassinos que aqui estão têm de ser detidos. Este é um apelo à justiça, porque sempre que há um protesto, quenianos inocentes morrem”, declarou aos meios de comunicação social Hussein Khalid, diretor executivo da ONG Vocal Africa.
A participação nas manifestações de hoje foi muito menor do que entre junho e agosto de 2024, quando milhares de jovens da “Geração Z” saíram às ruas do país para protestar contra aumentos de impostos, em mobilizações que foram duramente reprimidas e causaram pelo menos 62 mortos, segundo a Autoridade Independente de Supervisão Policial (IPOA, na sigla em inglês).
Muitas dessas mortes ocorreram a 25 de junho, quando, após vários dias de marchas massivas, centenas de pessoas invadiram o Parlamento e as forças de segurança abriram fogo.
Em 2025, nessa mesma data e nos dias próximos, milhares de manifestantes voltaram a tomar as ruas para comemorar o primeiro aniversário desses acontecimentos e sofreram uma repressão severa que causou — de acordo com a IPOA — pelo menos 65 mortos entre a população civil.
Lusa

