A maioria dos cidadãos de 38 países africanos questionados pelo Afrobarómetro rejeita alternativas de governo autoritárias e prefere a democracia, mas menos de metade considera que vive de facto em regime democrático, anunciou hoje o investigador Joseph Asunka.

Segundo o diretor executivo do Afrobarómetro, Joseph Asunka, no ‘webinar’ “Quão famintos por Democracia estão os africanos comuns?” para a apresentação do mais recente relatório “Democracia: Uma procura em queda na África?” da organização, nos 38 países africanos estudados, a grande maioria (64%) rejeita alternativas autoritárias, sejam elas o poder de um homem só (79%), o regime de partido único (76%) ou o poder militar (65%).
“Continuamos a ter uma maioria de africanos a rejeitar essas alternativas. Portanto, essa é a boa notícia”, declarou, acrescentando que o compromisso “com o ideal da Democracia continua muito forte em todo o continente”.
No entanto, alertou, menos de metade (47%) diz que o seu país é, na verdade, uma democracia.
“Quando perguntamos aos africanos se consideram que o seu país é uma democracia, menos de metade acha que sim, e ainda muito menos [38%] estão satisfeitos com a forma como a democracia funciona nos seus países”, frisou, classificando essa questão de “défice democrático” como “a procura a andar à frente da oferta”.
Além disso, lamentou que a procura plena pelos regimes democráticos tenha “drasticamente caído”, enquanto a percentagem de cidadãos que dizem obter o que pretendem quase não se moveu.
“Esse desfasamento está a estreitar-se não porque os líderes africanos estejam a entregar a democracia que os cidadãos querem, mas simplesmente porque os cidadãos começaram a exigir menos dela”, explicou.
Segundo Asunka, “os africanos não deixaram de acreditar na democracia, simplesmente começaram a baixar as suas expectativas em relação a ela” e há várias explicações para tal.
“Em primeiro lugar, temos cada vez mais pessoas a dizer que os presidentes tendem a ignorar a lei, a ignorar os parlamentos e os mecanismos de fiscalização e equilíbrio de poderes”.
“As pessoas também estão mais propensas a dizer que as últimas eleições não foram livres e justas, e cada vez menos pessoas dizem sentir-se livres para expressar o que pensam”, prosseguiu.
O analista ressalvou que não existe uma rejeição à democracia, mas sim à forma como ela tem sido empregue.
No entanto, indicou que há um aviso que não pode ser ignorado: “a oposição ao regime militar, que costumava ser muito elevada há cerca de 10 anos, declinou significativamente. Por isso, hoje temos uma escassa maioria de africanos a dizer que o exército pode intervir se os líderes eleitos abusarem do poder”.
Uma das autoras do relatório, Suhaylah Peeraulee, explicou que, de forma geral, a democracia em África enfrentou desafios consideráveis ao longo da última década.
“Embora a maioria das democracias estudadas pelo Afrobarómetro, há uma década, tenha mantido um regime democrático, várias sofreram um recuo democrático nos anos seguintes, tornando-se ‘autocracias multipartidárias’ (Benim, Nigéria, Costa do Marfim, Moçambique, Serra Leoa e Tanzânia) ou regimes militares (Burkina Faso, Madagáscar e Mali). Apenas um país melhorou a sua situação: a Zâmbia, que recuperou o estatuto de ‘democracia eleitoral’ em 2021”, contextualizou.
Lusa

