O presidente da comissão da União Africana disse hoje, em Maputo, que Moçambique é alternativa energética para África e o mundo face à crise causada pelo conflito no Médio Oriente, e criticou atrasos no financiamento climático global.

“Hoje, Vossa Excelência está a posicionar-se como uma alternativa energética estratégica no mar. Face ao que se passa nos países do Golfo e à guerra no Irão, Moçambique é agora visto como uma alternativa energética ‘offshore’”, disse o presidente da comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, presente na abertura da 3.ª Conferência Crescendo Azul, que decorre até sexta-feira, em Maputo, com a presença também do secretário de Estado das Pescas e do Mar de Portugal, Salvador Malheiro, e da Diretora-Geral de Políticas do Mar, Marisa Lameiras da Silva.
Segundo o responsável, Moçambique tem potencial para ser o epicentro da economia azul a nível mundial devido à sua localização geográfica, que permite acesso ao mar e aos recursos de que dispõe, indicando que é importante no desenho de estratégias continentais para os desafios da economia e escoamento dos produtos marinhos e outros essenciais para África, sobretudo.
Neste sentido, adiantou que a União Africana tem duas estratégias, nomeadamente, a de desenvolvimento marinho africano, proteção oceânica e conservação costeira, e outra para a economia azul, adiantando que sem a cooperação regional e continental não se podem alcançar resultados concretos.
“Precisamos dos alicerces das regiões para construir a nossa agenda continental. A integração começa pelas regiões. Hoje, Moçambique está a mostrar o caminho”, disse referindo-se ao Centro Regional de Coordenação de Monitorização, Controlo e Fiscalização das Pescas da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), na Katembe, cidade de Maputo, inaugurado hoje.
Mahmoud Ali Youssouf disse que a economia azul já gera “dezenas de milhares de milhões de dólares” em receitas anualmente, mas lembrou que a conferência que decorre em Maputo acontece num contexto de desafios para o continente.
“Os desafios sanitários e climáticos estão a recrudescer. Países como Moçambique, Madagáscar e os Estados insulares são regularmente atingidos por ciclones devastadores. Apesar disso, a justiça climática e os financiamentos esperados para os nossos planos de adaptação tardam a concretizar-se”, lamentou.
Segundo a União Africana, o continente enfrenta a pesca ilícita, atos criminosos em alto mar e o terrorismo, que “perturbam” os planos de desenvolvimento, elogiando os esforços de Moçambique na busca de soluções que beneficiem toda África.
Neste sentido, disse que é preciso que a África priorize uma governação integrada e sustentável dos oceanos, apostando no investimento em infraestruturas, inovação e tecnologia e uma economia azul inclusiva que coloca as comunidades no centro das suas prioridades.
No mesmo evento, o presidente da Fundação para Conservação da Biodiversidade (Biofound), Carlos dos Santos, disse que o país enfrenta desafios na preservação da biodiversidade, pedindo aposta na divulgação de mais estudos e investimentos em tecnologias para gerir os recursos marinhos de forma sustentável.
“A degradação de ‘habitats’ críticos, a pesca ilegal, a erosão costeira, a poluição, a pressão demográfica sobre a zona costeira e os impactos crescentes das mudanças climáticas constituem ameaças reais à biodiversidade e ao bem-estar das comunidades que dependem diretamente destes recursos”, disse o responsável, ao intervir na 4.ª conferência da biodiversidade marinha, integrada na 3.ª Conferência Crescendo Azul.
Carlos dos Santos disse que a conservação de recursos marinhos é responsabilidade ambiental, mas também económica, social e moral, indicando que o futuro azul vai depender de ações concretas na conservação destes bens.
O Governo admitiu hoje que o país ainda enfrenta a pesca ilegal e a destruição de mangais, com a poluição, erosão costeira e impacto de mudanças climáticas, pedindo mais investigação científica, a melhoria dos sistemas de fiscalização e o fortalecimento das áreas de conservação marinha, transformando-se conhecimento em políticas públicas.
Lusa

