A Comissão Interministerial para a Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos em Angola (CIVICOP) revelou esta quinta-feira a identidade das primeiras cinco vítimas identificadas entre as 602 ossadas retiradas da vala comum do chamado Cemitério do 14.

A informação foi avançada no Laboratório Central de Criminalística pelo coordenador da Subcomissão Técnica da CIVICOP, o general Fernando Garcia Miala, durante um encontro com familiares das vítimas identificadas através de testes de ADN.
Segundo os resultados apresentados pelas autoridades, as primeiras ossadas identificadas pertencem a José António Amaro, Jorge Alberto Nezes, Alberto Fernando, Pedro Martins de Souza e Adriano Carçule, este último sem constar da lista oficial inicialmente divulgada pela comissão.
Durante a cerimónia, familiares emocionados relataram décadas de sofrimento, incerteza e procura pelos seus parentes desaparecidos desde os conflitos políticos ocorridos no país, sobretudo ligados aos acontecimentos de 27 de Maio de 1977.
Vários testemunhos descreveram detenções sem explicação, desaparecimentos forçados e o impacto devastador que as mortes tiveram sobre famílias inteiras. Alguns familiares afirmaram ter vivido quase meio século sem saber se os seus parentes estavam vivos ou mortos.
“Eu só queria saber se estava vivo ou morto”, relatou uma das familiares presentes no acto.
Outro depoimento descreveu a dor provocada pelo desaparecimento de um militar chamado às unidades após regressar de missão em Cabinda, que nunca mais voltou para casa, deixando para trás uma esposa grávida e uma família destruída pelo luto e pela incerteza.
A responsável pelos exames laboratoriais, identificada apenas como doutora Sandra, explicou que o processo de identificação continua em curso e apelou às famílias de desaparecidos para colaborarem através da recolha gratuita de amostras de sangue para testes genéticos.
Segundo a CIVICOP, a entrega oficial dos restos mortais às famílias começou esta sexta-feira, 22 de Maio, e o processo deverá prolongar-se por duas a três semanas, dependendo da confirmação das identidades através dos testes de ADN.
As autoridades angolanas consideram que a identificação das vítimas representa mais uma etapa do processo de reconciliação nacional iniciado pelo Executivo, num esforço para esclarecer o destino de cidadãos desaparecidos durante os conflitos políticos que marcaram Angola entre 1975 e 2002.
Os acontecimentos relacionados com o 27 de Maio de 1977 continuam entre os episódios mais sensíveis da história contemporânea angolana, tendo provocado milhares de mortes, detenções e desaparecimentos após alegadas tentativas de golpe de Estado no seio do MPLA.

