O economista guineense Carlos Lopes disse esta segunda-feira na cidade da Praia, Cabo Verde, que África pode contribuir ativamente para construir um multilateralismo diferente do que aquele que historicamente penalizou o continente, perante a atual rutura da ordem internacional.

“Reformar o multilateralismo não significa restaurar o passado, mas repensar profundamente os seus objetivos, instrumentos e critérios de legitimidade”, referiu o antigo secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA), numa apresentação intitulada “África e o fim das certezas multilaterais”, após receber o prémio Amílcar Cabral, na Universidade de Cabo Verde (UniCV).
Para África, o momento implica “uma escolha estratégica: o continente pode limitar-se a adaptar-se pragmaticamente à nova desordem global, explorando oportunidades pontuais, sem alterar estruturas profundas ou pode assumir um papel mais ambicioso. Contribuir ativamente para a construção de um multilateralismo diferente, menos baseado em regras herdadas e mais orientado para resultados, inclusão e justiça estrutural”, referiu.
Para Carlos Lopes, o fim das certezas multilaterais “não deve ser entendido como um colapso terminal, mas como um momento constitutivo, um momento em que as novas normas, novas instituições, novas hierarquias vão ser formadas”.
“A questão central é: quem participa nesse processo e em que condições? Se África conseguir articular a sua diversidade interna, fortalecer a cooperação regional e investir em capacidades estratégicas, económicas, tecnológicas, políticas, poderá deixar de ser objeto de reorganização global para se tornar sujeito, um sujeito ativo na sua definição”, assinalou.
O economista defendeu que, num mundo “em disrupção permanente, a estabilidade não virá da restauração de velhos consensos, mas da capacidade de navegar a incerteza com propósito e direção”.
“O continente entra neste momento de rutura sem estar excessivamente investido na preservação da ordem anterior, que historicamente o penalizou”, com “regras comerciais assimétricas, regimes de dívida restritivos, escasso acesso a capitais, exclusão tecnológica e marginalização política, [características que] marcaram a experiência africana no sistema multilateral”, explicou.
Para o economista, África tem “menos a perder na ilusão dessas certezas e, paradoxalmente, mais espaço para imaginar alternativas”.
África possui “a população mais jovem do planeta e a maior força de trabalho em crescimento”, uma realidade que, referiu, “continua a ser tratada, predominantemente, como um risco associado à migração irregular ou à instabilidade e não como uma oportunidade de co-desenvolvimento”.
“A incapacidade do sistema internacional de articular mobilidade laboral, investimento produtivo e desenvolvimento humano revela mais uma vez os limites do multilateralismo existente”, acrescentou, fazendo um diagnóstico: “o problema não é apenas o enfraquecimento das instituições multilaterais, mas a sua inadequação às condições atuais — concebidas para um mundo mais lento, mais previsível, mais hierárquico, lutam para responder a uma realidade que agora é marcada por velocidade, complexidade e interdependência assimétrica”.
Carlos Lopes pede atenção às tecnologias, como a inteligência artificial: “Cada vez mais, nas fronteiras, não vai ser um agente que vai decidir, mas o algoritmo” e até mesmo noutros níveis, as sanções podem tornar-se algorítmicas.
Transformações que o levam à questão da legitimidade política “no sentido profundo que Amílcar Cabral lhe atribuía: não derivava da eficiência técnica, nem do reconhecimento externo, mas da correspondência entre o poder político, verdade social e dignidade, a dignidade vivida”.
“O fim das certezas multilaterais não é o fim da política internacional, é o fim de uma ilusão confortável — e como tantas vezes na história, é quando as ilusões caem que se abrem espaços para a verdade, para a responsabilidade e para a criação”, concluiu.
Carlos Lopes citou várias vezes o patrono do prémio que recebeu, afirmando-se como um filiado aos ideais de Cabral, que descreveu como “um pensador rigoroso da legitimidade política, fundada em princípios que permanecem centrais, os direitos, a dignidade humana, a soberania e a autodeterminação dos povos”.
O reitor da UniCV justificou a escolha do economista como primeiro laureado com o Prémio Amílcar Cabral, considerando que “tem sabido, de forma exemplar, chamar a atenção para o ‘sul global’ e sobre a necessidade de ter capacidade de pensar pela própria cabeça” — uma expressão muitas vezes usada pelo artífice das independências da Guiné-Bissau e Cabo Verde para falar da autodeterminação dos povos.
Lusa

