Quelimane, Moçambique, 17 ago 2026 (Lusa) – A polícia moçambicana disse hoje que informou o partido Anamola sobre a inexistência de condições para uma marcha em Quelimane, e que usou gás lacrimogéneo para conter ânimos, após alegados insultos às autoridades e apedrejamento de uma viatura policial.

Em conferência de imprensa, a porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM) na Zambézia, Belarmina Henriques, disse que as autoridades comunicaram ao partido Aliança Nacional por um Moçambique Livre e Autónomo (Anamola) que não estavam reunidas as condições para a realização da marcha na cidade de Quelimane, no sábado, uma vez que decorria em simultâneo um festival local, descrito como evento caracterizado por “movimento desusado de pessoas, aglomerado populacional e elevado fluxo de circulação de viaturas”.
Segundo a responsável, a polícia apelou ao partido para não avançar com a marcha e limitar as celebrações do primeiro aniversário da sua fundação a um outro evento, com comício, realizado naquele dia, para garantir a realização do festival e evitar o congestionamento das vias públicas.
“Sucede que após o término do ‘showmício’ não foi tido em consideração o comunicado feito pelas autoridades policiais, tendo-se observado a organização de uma caravana para efeitos de realização da marcha, o que configurou desacato às autoridades”, afirmou Belarmina Henriques.
O Anamola, fundado pelo político Venâncio Mondlane, contabilizou quatro feridos na sequência de disparos efetuados pela polícia, para dispersar e impedir a marcha de celebração do primeiro aniversário da formação política, em Quelimane, centro do país, exigindo a responsabilização dos agentes envolvidos.
A PRM explicou ainda que, apesar dos apelos para que a marcha não se realizasse, membros e simpatizantes do Anamola adotaram, alegadamente, “condutas agressivas”, incluindo “palavrões dirigidos às autoridades policiais”. Segundo a corporação, um dos simpatizantes terá igualmente arremessado pedras contra uma viatura policial, danificando o vidro frontal.
Face à situação, os agentes recorreram ao lançamento de gás lacrimogéneo para “conter os ânimos”.
“Na sequência da dispersão do gás lacrimogéneo, foi perturbado um enxame de abelhas nas imediações do campo da Sagrada Família, que atacou participantes do evento e feriu gravemente um dos membros e simpatizantes do partido Anamola, que foi prontamente socorrido numa unidade sanitária”, declarou Belarmina Henriques.
A responsável rejeitou o uso de armas de fogo contra membros e simpatizantes do partido, sustentando que os disparos efetuados foram exclusivamente de gás lacrimogéneo e duraram apenas cinco minutos.
A Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) instou hoje o Ministério Público a desencadear uma investigação célere e transparente para esclarecer os acontecimentos.
Também os partidos Povo Optimista para o Desenvolvimento de Moçambique (Podemos), principal força da oposição, e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) criticaram a atuação da polícia e defenderam uma investigação independente.
Por sua vez, a organização não-governamental Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) denunciou um alegado “tratamento desigual” dos partidos políticos em ações de mobilização, sustentando que iniciativas da oposição têm sido alvo de “restrições ou intervenções das autoridades”.
O autarca de Quelimane, Manuel de Araújo, manifestou “profundo choque” com a atuação da polícia, considerando a sua postura “musculada e desproporcional”.
Venâncio Mondlane chegou na sexta-feira a Quelimane para participar nas celebrações. À sua chegada, era já visível um forte dispositivo policial nas imediações do aeroporto local.
Mondlane foi eleito, em junho, presidente do Anamola por unanimidade durante a primeira Convenção Nacional da formação política, depois de ter assumido interinamente a sua liderança desde a criação do partido, em agosto de 2025.

