Líder do Movimento Social para a Mudança diz ter presenciado actos de violência e acusa o partido no poder de recorrer à força em vez do diálogo

O líder do Movimento Social para a Mudança, Francisco Teixeira, acusou o MPLA de protagonizar actos de intolerância política durante os acontecimentos registados recentemente na província do Uíge.
Em entrevista concedida após a sua deslocação à província, a convite da JURA, Teixeira afirmou ter chegado ao Uíge na noite de quarta-feira e ter constatado movimentações que considerou “estranhas” antes dos incidentes.
Segundo o político, a situação terá criado dificuldades para a realização das actividades programadas pela organização juvenil da UNITA, incluindo um acampamento no município do Negage.
Francisco Teixeira alegou que membros ligados ao MPLA terão reservado vários quartos de hotéis e ficado com as respectivas chaves, dificultando o alojamento de participantes nas actividades da JURA. Afirmou ainda que alguns acessos terão sido bloqueados durante o dia dos acontecimentos.
Acusações de violência
Na entrevista, o líder do Movimento Social para a Mudança afirmou igualmente ter presenciado episódios de violência contra participantes nas actividades políticas.
Segundo o seu relato, mulheres, idosos, crianças e jovens terão sido agredidos durante os confrontos.
As declarações foram feitas durante uma entrevista conduzida por Nelito Ekuikui e publicado por este na sua página rede social Facebook.
Teixeira rejeitou, por isso, a ideia de colocar MPLA e UNITA no mesmo nível de responsabilidade pela intolerância política e afirmou que, na sua avaliação, o partido no poder continua a adoptar uma postura de confronto.
“O MPLA parece que só lhe sobrou a força e já não tem o diálogo”, afirmou.
Críticas à presença de bandeiras do MPLA
Outro dos assuntos abordados durante a entrevista foi a presença de bandeiras do MPLA na cidade do Uíge.
Francisco Teixeira questionou a legalidade da colocação das bandeiras, argumentando que o país não se encontra em período de campanha eleitoral.
O dirigente questionou igualmente a actuação das autoridades perante aquilo que considera ser uma violação da legislação eleitoral ou das regras aplicáveis à actividade partidária.
“Então, a lei só serve para uns, para outros não serve?”, questionou.
As declarações foram feitas num contexto de crescente tensão política na província, segundo o relato apresentado na entrevista.
Referência aos acontecimentos de 27 de Maio e à guerra
Durante a conversa, Francisco Teixeira fez também uma interpretação histórica dos conflitos políticos e militares de Angola.
Ao abordar a figura de Jonas Savimbi, afirmou que a sua geração chegou à conclusão de que o antigo líder da UNITA “só se defendeu” perante aquilo que classificou como um regime cuja génese seria marcada pela violência.
A afirmação representa uma interpretação política e histórica do entrevistado e não constitui, por si só, uma conclusão consensual sobre a guerra civil angolana.
Teixeira defendeu ainda que a actual geração de jovens deve assumir um papel activo na transformação política do país.
“A nossa geração precisa libertar-se”
O líder do Movimento Social para a Mudança apelou aos jovens para que não esperem por uma mudança voluntária por parte do partido no poder.
Para sustentar a sua posição, estabeleceu uma comparação com a escravatura, afirmando que esta não terminou porque os escravizadores decidiram abandoná-la, mas porque os escravizados se revoltaram.
“Chegou o momento que eu entendo que a nossa geração precisa libertar-se”, afirmou.
Teixeira defendeu que os jovens devem construir o seu próprio caminho político e deixar um legado para as gerações futuras.
Referência à manifestação de Outubro de 2021
A entrevista abordou igualmente a manifestação realizada em Luanda em Outubro de 2021, que o entrevistador recordou como uma das maiores manifestações daquele período.
Francisco Teixeira confirmou ter participado na convocação da manifestação, juntamente com outros activistas, e afirmou que aquele movimento teria contribuído para alterar a dinâmica política e social de Luanda.
Segundo o entrevistado, apesar da violência registada naquela ocasião, sectores da população terão demonstrado apoio aos manifestantes, inclusive através da abertura das suas casas para lhes oferecer protecção.
Apelo à mobilização política
Na parte final da entrevista, Francisco Teixeira defendeu a continuidade da mobilização política e afirmou que a sua geração não deve permanecer numa posição de submissão.
O dirigente declarou ainda que o MPLA deixará o poder e que a sua geração não pretende “ficar de joelhos”.
A entrevista termina com um apelo à participação política dos jovens e com uma reflexão sobre o papel que as novas gerações deverão desempenhar na história do país.
As acusações apresentadas por Francisco Teixeira deverão, entretanto, ser confrontadas com as versões das autoridades, do MPLA, da UNITA e de outras entidades envolvidas, bem como com eventuais informações oficiais sobre os acontecimentos registados no Uíge.

