O porta-voz da Conferência Episcopal Católica em Angola e São Tomé (CEAST) alertou hoje para a necessidade de aposta no desenvolvimento e para a falta de qualidade da educação, que pode transformar Angola num “país de analfabetos”.

Em conferência de imprensa, um dia após a partida do Papa Leão XIV de Angola, o porta-voz da CEAST, Belmiro Chissengueti, fez um balanço positivo da viagem apostólica, que incluiu uma passagem de três dias pelo país.
Sobre as mensagens deixadas pelo Papa, em particular a da paz, o também bispo de Cabinda apelou a um trabalho contínuo, sublinhando que esta é apenas “um ponto de partida”.
“A paz é apenas um ponto de partida. Se não der lugar ao desenvolvimento volta-se à instabilidade, é preciso trabalharmos todos para termos uma Angola desenvolvida, pacífica e reconciliada”, afirmou o responsável.
Questionado pela Lusa sobre o apelo do Presidente angolano, João Lourenço, a um envolvimento “mais construtivo” da Igreja Católica como parceira do Estado angolano, Belmiro Chissengueti considerou que “este é um caminho que nunca está terminado”.
Sublinhou que a Igreja tem maior intervenção nos domínios da educação e da saúde, num trabalho que “pode ser continuamente melhorado” e ter uma abrangência cada vez maior.
No que diz respeito à educação, salientou que em muitas zonas do país não há escolas e noutras os professores contratados pelo Estado “passeiam pela escola” sem verdadeiramente lecionar, acrescentando que a Igreja tem manifestado disponibilidade para colmatar estas lacunas.
Afirmou que os sacerdotes mais próximos do povo poderiam ter melhores condições para ensinar, em vez de professores que têm de percorrer enormes distâncias, um caminho que até a administração colonial seguiu quando construiu as escolas das missões, notou.
“Se continuarmos nesta senda estaremos a formar um país de analfabetos, o que é tenebroso para o nosso futuro”, criticou, a propósito da falta de qualidade geral do ensino e das faltas dos docentes.
“O domínio da educação é realmente fundamental para o futuro do nosso país”, disse o religioso, lamentando que “algumas universidades” sejam uma “continuação da escola primária” e não permitam formar bons profissionais.
Sobre o incidente protagonizado por um homem que furou a barreira de segurança numa aparente tentativa de saudação, indicou que se terá tratado de “um ato emocional” que “não maculou a visita”.
O porta-voz da CEAST frisou que as caravanas presidenciais têm “uma segurança séria” e que “há brincadeiras ou tentativas que não se fazem nestas ocasiões”, já que poderia ter arriscado ser baleado.
“É preciso que entendam que as questões de segurança são fundamentais”, frisou, adiantando não ter mais informações, além de que o homem foi detido e interrogado.
O bispo agradeceu o empenho pessoal de João Lourenço na visita do Papa e destacou o apoio do Governo à melhoria das infraestruturas, com obras ainda em curso na Muxima, que será um dos maiores destinos de turismo religioso em África, bem como noutros locais das celebrações, como o Kilamba (Luanda) e Saurimo, capital da Lunda Sul.
O bispo realçou ainda o empenho de mais de 11 mil escuteiros católicos, sublinhando a dimensão política e espiritual da visita, enquanto chefe de Estado e enquanto líder da Igreja Católica.
Por outro lado, sem adiantar números, considerou que o facto de os fiéis terem de decidir entre o Kilamba, em Luanda, ou a Muxima (Icolo e Bengo), aliado a dificuldades de mobilidade, jogou contra as previsões de afluência.
Destacou ainda que a visita do Papa coloca Angola no mapa da prioridade e da responsabilidade, tendo em conta que o pontífice escolheu incluir, no seu primeiro grande itinerário, quatro países, entre os quais Angola, onde, assinalou, a Igreja está “pujante”.
A assegurar a cobertura estiveram cerca de 800 profissionais da comunicação social angolana, 250 estrangeiros acreditados no país e 300 que vieram do exterior, além dos 80 que viajaram no avião com o Papa, segundo o diretor nacional de Informação e Comunicação Institucional, João Demba.
Lusa

