No domingo, o dilúvio desabou sobre Clementino e Teresa quando um dos diques de retenção do rio Cavaco, em Benguela, se rompeu. Esta segunda-feira, não arredam pé do mar de lama que ficou, à espera que o calor seque o que restou das águas para tentar recuperar bens e proteger o pouco que sobrou de roubos.

São ambos moradores do bairro Calomanga, um dos mais atingidos pelas cheias de domingo, na província angolana de Benguela (sul) que obrigaram muitos populares a refugiar-se nos telhados e provocaram um número de vítimas ainda por determinar.
Para já, estão confirmadas cinco mortes, mas o número deverá aumentar à medida que o caudal das águas desce e corpos emergem nos bairros e na areia das praias, para onde terão sido arrastados pelas enxurradas.
Pouco passava das 08:00 quando uma vizinha acorreu, aos gritos, à casa de Teresa Lungongo: “Mana, acorda, sai, sai, está a vir água”.
Em sobressalto e ainda incrédula, Teresa saiu para a rua e viu a corrente a aproximar-se. Mal entrou no quintal, a água já chegava ao portão. Teve apenas tempo para pegar nos filhos e em alguns bens e fugiu.
“A água começou do lado do Cavaco e veio a arrastar tudo com a correnteza. As pessoas começaram a subir para os terraços porque as casas começaram a cair. Ficaram sem casa, sem meios, alguns perderam familiares”, relatou à agência Lusa.
Conta que alguns corpos apareceram no próprio dia e que, na noite de domingo, terão sido recuperados mais alguns.
Residente no Calomanga desde 2012, Teresa diz que as águas baixaram ligeiramente, mas quase ninguém consegue sair de casa nem circular pelas ruas, transformadas num lamaçal escorregadio. As crianças também não conseguem ir à escola.
“Vamos sair como? Nem temos transporte para ir para a cidade”, desabafa.
Perderam-se documentos, material escolar e bens essenciais e “os pais não têm capacidade para comprar mais”, lamenta.
“Neste momento estamos aqui, não conseguimos fazer nada. Eu ainda tinha um pouco, mas esse pouco também foi. Não consigo ajudar as outras pessoas do bairro”, entristece-se.
Teresa diz que ainda resta “um pouquinho de água” para beber, já turva, e que se vai comendo “do bocado que sobrou”, temendo que os alimentos se estraguem, já que estão sem eletricidade desde sábado. Outros ficaram desalojados e deslocam-se a pontos de acolhimento, como o Jardim da Peça, onde estão a ser distribuídos alimentos.
“Eu prefiro ficar na minha casa, tenho medo de ser roubada. O pouco que eu tenho, depois quem me vai dar?”, questiona. “Se eu perder a minha televisão, a minha geleira, a minha botija, quem vai me devolver?”
Teresa afirma ainda não ter visto equipas das autoridades a fazer o levantamento das famílias afetadas naquela zona. “Têm de andar em cada bairro e saber o que aconteceu”, defende.
Clementino Pina segura um pau que o ajuda a caminhar e com o qual remexe a lama escura à procura de algo que possa recuperar. Na outra mão leva umas calças, o único bem que tem neste momento.
Vive ali há quase 65 anos e garante nunca ter visto nada semelhante.
“Não sei se é um imprevisto ou se é calamidade”, diz, referindo um “desvio do rio” que chegou com força ao Calomanga, onde, sublinha, “nem choveu”.
“Isto nunca aconteceu”, repete. “Há muita morte no fundo. Ficámos sem arroz, sem feijão, sem milho, sem colchão”, lamenta.
“Aqui onde eu estou” — diz, escavando a lama com o pau — “é a minha casa. Graças a Deus foi de dia. Se fosse de noite, o pior teria acontecido.”
Na altura, tinha saído com os netos para ir cortar o cabelo. Ao chegar à barbearia, não encontrou “o moço”. Foi então que ouviu os gritos “água, água” e chegou a aflição.
“Vou para ali, água. Vou para ali, água. Vou por ali, água. Mas sem chuva”, descreve.
Foi socorrido pelos netos, mas “perderam tudo”.
“Agora dependemos de ir à Peça mendigar um pão, uma bolacha”, diz, recusando abandonar o bairro: “As coisas estão enterradas no chão e é nessa altura que os gatunos aproveitam.”
A casa desabou. “Não tem lá nada, eu ali já não vou”, admite, acreditando que o pouco que poderia ter restado já terá sido levado.
Diz que, até agora, ninguém das autoridades passou naquela rua. “Aqui não chegam. Estão lá no Satanás, aqui não chega ninguém”, desabafa, ouvindo-se ao fundo os risos dos vizinhos que seguem, atentos, a entrevista.
Para Clementino, “houve falta de responsabilidade” e a tragédia poderia ter sido evitada.
“Há dez anos repararam um dique, sim senhora, mas as pessoas lá em cima já avisavam que havia rotura”, afirma. E a água acabou por chegar “de surpresa”
“Os mortos são muitos. Ainda há pouco tempo um amigo desenterrou um dos filhos dele, que são gémeos”, lamenta.
Enquanto a água recua lentamente, deixando exposto um cenário de destruição, perdas e incerteza, os moradores seguem firmes, mostrando que a resistência é também sinónimo de ser angolano.
Lusa

