Presidente angolano destaca acordos sobre o Corredor do Lobito, exploração conjunta de petróleo, venda de energia e aumento das trocas comerciais entre os dois países

O Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, afirmou, esta quarta-feira, em Kinshasa, que Angola e a República Democrática do Congo (RDC) estão a inaugurar uma “nova era” nas relações económicas e comerciais, depois de anos de cooperação considerada insuficiente entre dois países que partilham mais de 2.500 quilómetros de fronteira terrestre.
Ao falar à imprensa no final da sua visita à capital congolesa, João Lourenço destacou a assinatura dos contratos que permitem avançar com a reabilitação, modernização e exploração da linha ferroviária no território da RDC, no âmbito do Corredor do Lobito.
Segundo o Chefe de Estado, os acordos agora assinados permitem ultrapassar uma das principais limitações que condicionavam a concretização do projecto, tornando possível a exploração da linha do Caminho-de-Ferro de Benguela em toda a sua extensão.
“Acreditamos que, a partir da assinatura destes contratos, poderemos ver viabilizado o Corredor do Lobito nos próximos anos”, afirmou.
Petróleo: exploração conjunta poderá começar em três a quatro anos
Outro dos principais temas abordados pelo Presidente angolano foi a Zona de Interesse Comum, área marítima onde Angola e RDC pretendem explorar conjuntamente recursos petrolíferos.
João Lourenço recordou que o primeiro memorando de entendimento sobre a exploração conjunta foi assinado em 2003, mas permaneceu sem execução durante cerca de duas décadas.
A partir de 2023, contudo, os dois governos começaram a desenvolver negociações técnicas e ministeriais para transformar o entendimento numa realidade.
O Presidente afirmou que os principais aspectos do negócio já estão negociados, incluindo a gestão conjunta e a partilha da produção em benefício dos dois países, numa proporção de 50% para Angola e 50% para a RDC.
“Se continuarmos com este mesmo espírito de cooperação, poderemos, dentro de sensivelmente três a quatro anos, começar, de facto, a fazer essa exploração conjunta do petróleo”, declarou.
Falta agora, segundo João Lourenço, criar as condições técnicas e financeiras necessárias para o início efectivo da actividade petrolífera.
Angola vai vender energia à RDC
A cooperação energética foi igualmente apresentada como uma das áreas estratégicas da nova relação entre os dois países.
João Lourenço anunciou o entendimento para a construção de uma linha de transporte de energia de 400 kV, ligando o Soyo, em Angola, ao Inga, na RDC, passando por Matadi.
Através desta infra-estrutura, Angola deverá fornecer energia eléctrica à República Democrática do Congo.
O Presidente anunciou ainda uma segunda linha, de aproximadamente 1.300 quilómetros, ligando Laúca, na província de Malanje, à região de Kolwezi, na RDC, destinada sobretudo a abastecer a importante zona mineira congolesa.
As autoridades congolesas poderão posteriormente estender essas linhas para outras regiões do país, permitindo aumentar o acesso à electricidade para consumo doméstico e industrial.
Combustíveis angolanos no mercado congolês
No domínio comercial, João Lourenço revelou que a Sonangol e empresas congolesas do sector petrolífero estão próximas de concluir um acordo para a compra e venda de produtos refinados produzidos em Angola, nomeadamente gasolina e diesel.
O Presidente defendeu também uma maior participação do sector privado nas relações comerciais entre os dois países.
Entre os produtos angolanos com potencial de exportação para a RDC, destacou peixe, sal e outros produtos alimentares produzidos nas províncias de Benguela e Namibe.
Segundo João Lourenço, existe procura destes produtos no mercado congolês, mas parte significativa das transacções é actualmente realizada de maneira informal, situação que pretende ver substituída por relações comerciais formalizadas, com maiores garantias de qualidade, segurança e higiene para os consumidores.
“Tudo dependia apenas de nós”
Ao abordar o histórico das relações entre os dois países, João Lourenço reconheceu que, apesar dos laços históricos e da proximidade entre os dois povos, Angola e RDC demoraram a transformar essa proximidade em cooperação económica efectiva.
Para o Presidente angolano, a mudança dependeu sobretudo da vontade política das actuais lideranças.
João Lourenço felicitou, por isso, o Presidente Félix Antoine Tshisekedi, considerando-o o primeiro governante congolês com quem as autoridades angolanas conseguiram fazer avançar concretamente vários dossiers estratégicos.
“Estamos a inaugurar uma nova era nas relações entre os nossos dois países”, afirmou.
O Chefe de Estado angolano considera que os acordos alcançados representam apenas o início de uma cooperação que poderá crescer significativamente nos próximos anos, aumentando o volume das trocas comerciais e dos investimentos entre Angola e a RDC.
“Hoje, ainda vamos a tempo de corrigir, estamos a fazê-lo”, concluiu João Lourenço.

