Por José Luís Mussemo
Cerca de uma em cada três crianças africanas não tem acesso à água potável, enquanto mais de metade vive sem saneamento adequado, uma realidade que continua a expor milhões de menores a doenças, desnutrição, abandono escolar e deslocações forçadas. No Sahel, onde a escassez de água é agravada pelas secas e pelas alterações climáticas, o problema assume proporções particularmente graves.

Em Angola, os números também revelam uma situação preocupante. Os dados mais recentes compilados pelo UNICEF indicam que 68% da população angolana tinha, em 2024, acesso a pelo menos um serviço básico de água potável, o que significa que 32% da população permanecia abaixo desse nível de acesso.
Angola tinha uma população estimada em 39 milhões de pessoas, segundo os dados mais recentes do UNICEF, e mais de 56% dos angolanos têm menos de 18 anos.
Cerca de 7 milhões de crianças sem acesso básico
Embora o UNICEF não apresente actualmente um número separado exclusivamente para crianças sem acesso a água potável, é possível fazer uma estimativa a partir dos indicadores disponíveis.
Se mais de 56% da população angolana é constituída por menores de 18 anos, o país terá aproximadamente 21,9 milhões de crianças e adolescentes. Aplicando a estes menores a taxa nacional de 32% da população que não dispõe de pelo menos um serviço básico de água potável, chega-se a uma estimativa de cerca de 7 milhões de crianças e adolescentes abaixo desse nível de acesso.
Trata-se de uma estimativa, e não de uma contagem oficial do número de crianças sem água potável. A taxa de 32% é nacional e pode não ser exactamente igual entre crianças e adultos.
O indicador também exige alguma cautela. O conceito de “pelo menos serviço básico” utilizado pelo sistema de monitorização da OMS e do UNICEF considera uma fonte melhorada de água que esteja disponível e cuja recolha não ultrapasse, em regra, 30 minutos. Angola ainda não dispõe de uma estimativa publicada para a categoria mais exigente de água potável gerida de forma segura.
8% dos angolanos ainda recorrem a águas de superfície
Os dados de 2024 mostram ainda a dimensão das diferentes formas de acesso à água em Angola.
Dos 68% que dispõem de pelo menos um serviço básico, 11% têm acesso limitado, enquanto 13% dependem de fontes não melhoradas e 8% utilizam águas de superfície, como rios, lagos ou outros cursos de água.
Só o grupo que recorre directamente a águas de superfície representa aproximadamente 3,1 milhões de pessoas, se aplicada a percentagem à população estimada de 39 milhões.
A situação torna-se particularmente grave para as crianças que vivem em comunidades rurais e nas regiões afectadas pela seca. No sul de Angola, sobretudo nas províncias do Cunene e da Huíla, famílias continuam a enfrentar longas distâncias para conseguir água.
Em 2025, o UNICEF relatou que crianças chegavam a passar horas a operar bombas de água para garantir o abastecimento das suas famílias. A reabilitação de 24 furos nessas regiões passou a beneficiar directamente mais de 68 mil pessoas.
Água também é uma questão de educação
A falta de água não representa apenas um problema de saúde pública. Para milhares de crianças, sobretudo meninas, significa também menos tempo na escola.
No Cunene, durante a grave seca que afectou o sul do país, o UNICEF documentou casos de crianças que percorriam longas distâncias para procurar água. Em algumas comunidades, a crise chegou a afectar a frequência escolar. Numa das escolas da região, o número de alunos matriculados chegou a cair 20% durante a crise.
Nas escolas angolanas, a situação continua igualmente preocupante. Um levantamento realizado em 600 escolas das províncias do Cunene, Huíla, Bié, Luanda, Namibe e Huambo revelou que 49% das escolas não tinham qualquer fonte de água potável, enquanto apenas 42% tinham água disponível para beber.
O mesmo levantamento indica que 63% das escolas não estavam ligadas à rede pública de abastecimento de água e que, entre as escolas ligadas à rede, o fornecimento apresentava falhas em aproximadamente 61% do tempo.
Saneamento continua a ser outro grande problema
O défice não termina na água. Os dados do UNICEF indicam que, em 2024, apenas cerca de 50% da população angolana utilizava pelo menos serviços básicos de saneamento, enquanto 21% tinha acesso limitado.
A prática da defecação ao ar livre continua também presente. O indicador do UNICEF para 2022 apontava para 17% da população a praticar defecação ao ar livre.
Nas escolas, o problema assume igualmente grandes proporções: o UNICEF aponta que 28% das escolas avaliadas ainda registavam defecação ao ar livre nas suas imediações.
Cólera expôs fragilidades
A ligação entre água, saneamento e saúde tornou-se particularmente evidente durante o surto de cólera que atingiu Angola a partir de Janeiro de 2025.
Segundo o UNICEF, o país registou mais de 27.600 casos e 771 mortes em 18 províncias durante o surto de 2025. As comunidades com menor acesso a água potável, saneamento seguro e serviços básicos de saúde estiveram entre as mais vulneráveis.
As crianças estiveram entre os grupos mais afectados. Dados regionais divulgados pelo UNICEF indicaram que, no período inicial do surto, 40% dos casos de cólera em Angola correspondiam a menores de 15 anos.
Um problema que vai além de Angola
A situação angolana faz parte de uma crise muito maior no continente africano.
Dados mais recentes do UNICEF mostram que, em 2024, uma em cada três pessoas na África Oriental e Austral ainda não tinha acesso sequer a um serviço básico de água potável, enquanto cerca de dois em cada três habitantes não tinham acesso a serviços básicos de saneamento e higiene.
No continente, as alterações climáticas estão a aumentar a pressão sobre os recursos hídricos. Secas prolongadas reduzem a disponibilidade de água, enquanto inundações podem destruir infra-estruturas e contaminar fontes existentes.
No Sahel, a escassez de água também está a aumentar as tensões entre comunidades agrícolas e pastoris. A disputa por poços, rios e outras fontes de água pode transformar uma questão de sobrevivência numa questão de segurança e provocar deslocações populacionais.
Uma factura que recai sobre as crianças
A dimensão do problema pode ser resumida em alguns números:
39 milhões — população estimada de Angola;
mais de 56% — proporção da população angolana com menos de 18 anos;
68% — população com pelo menos um serviço básico de água potável em 2024;
32% — população abaixo desse nível de acesso;
cerca de 7 milhões — estimativa de crianças e adolescentes angolanos abaixo do nível básico de acesso à água, aplicando a taxa nacional à população menor de 18 anos;
8% — população que utiliza águas de superfície;
13% — população que utiliza fontes de água não melhoradas;
50% — população com pelo menos serviços básicos de saneamento;
17% — população que praticava defecação ao ar livre em 2022;
49% — escolas avaliadas que não tinham qualquer fonte de água potável;
28% — escolas avaliadas onde ainda ocorria defecação ao ar livre nas imediações;
27.600+ — casos de cólera registados em Angola em 2025;
771 — mortes provocadas pelo surto de cólera em 2025.
Por trás de cada percentagem existem crianças que chegam atrasadas à escola porque tiveram de procurar água, famílias que consomem água de fontes inseguras e comunidades inteiras expostas a doenças que poderiam ser prevenidas.
Em Angola, portanto, a questão não é apenas saber quantas crianças têm água em casa. É saber quantas conseguem beber água segura, quanto tempo precisam para obtê-la e quantas oportunidades de educação, saúde e desenvolvimento perdem por causa da falta desse recurso essencial.

