Sexta-feira, 31 de Julho, 2026

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Ciberataque à Unitel mantém impacto nos pagamentos e provoca corrida aos ATM em Luanda

Luanda — Quase três dias depois do ciberataque que atingiu a infraestrutura tecnológica da Unitel, os efeitos do incidente continuam a fazer-se sentir no quotidiano dos angolanos, sobretudo nos sistemas de pagamentos electrónicos.

Embora os serviços de telecomunicações tenham começado a ser progressivamente restabelecidos, a recuperação da infraestrutura ainda não foi concluída, deixando condicionados alguns serviços utilizados diariamente por empresas, comerciantes e consumidores.

A situação tem provocado um aumento da procura pelos Terminais de Caixa Automático (ATM) em diferentes zonas de Luanda, com filas de cidadãos que procuram levantar dinheiro para efectuar pagamentos em estabelecimentos comerciais onde os pagamentos electrónicos continuam a apresentar limitações.

Em várias zonas da capital, é possível observar filas superiores ao habitual junto dos ATM, numa demonstração dos efeitos que uma falha numa infraestrutura tecnológica crítica pode produzir muito para além do sector das telecomunicações.

Cartões continuam a enfrentar limitações

A indisponibilidade ou funcionamento irregular de determinados meios electrónicos de pagamento está a obrigar muitos consumidores a regressar temporariamente ao dinheiro físico.

Em lojas e outros estabelecimentos comerciais, clientes que habitualmente utilizam cartões bancários encontram dificuldades para concluir as compras através dos Terminais de Pagamento Automático (TPA), recorrendo aos ATM para levantar dinheiro.

O fenómeno também é visível nas bombas de combustível, onde a redução do número de viaturas em algumas estações contrasta com o movimento normalmente registado.

A dificuldade em efectuar pagamentos electrónicos faz com que alguns automobilistas prefiram não abastecer ou tenham de procurar dinheiro físico antes de realizar a operação.

O impacto demonstra a crescente dependência da economia angolana dos sistemas digitais de comunicação e pagamento.

Ataque afectou mais de 20 milhões de clientes

A Unitel confirmou que foi alvo de um ataque cibernético na madrugada de terça-feira, 28 de Julho, com início às 02h20.

O incidente atingiu a infraestrutura tecnológica da operadora e provocou interrupções nos serviços de voz, dados móveis e acesso à Internet em todo o território nacional. A empresa activou imediatamente os mecanismos de resposta e contenção e mobilizou equipas técnicas e de cibersegurança para tentar limitar os efeitos do ataque.

A operadora possui cerca de 20,8 milhões de clientes, o que ajuda a explicar a dimensão nacional dos efeitos provocados pelo incidente.

O presidente do Conselho de Administração da Unitel, Aguinaldo Jaime, classificou o episódio como o ataque mais grave e sofisticado sofrido pela empresa desde a sua criação.

Segundo o responsável, a Unitel já foi alvo de dezenas de tentativas de ataque ao longo da sua actividade, mas nenhuma teria tido um impacto comparável ao incidente actual.

Recuperação ainda não está concluída

Apesar do restabelecimento progressivo de alguns serviços, Aguinaldo Jaime indicou que a recuperação da capacidade tecnológica continuava em curso e que equipas especializadas, incluindo peritos internacionais, estavam a colaborar no processo.

A administração da empresa manteve reserva sobre a natureza concreta do ataque, justificando a decisão com a necessidade de não prejudicar as investigações em curso.

A Unitel assegurou igualmente que os dados sensíveis dos clientes não foram comprometidos, uma informação particularmente relevante perante as preocupações que começaram a circular nas redes sociais e entre os utilizadores.

Receios sobre números e dados dos clientes

A duração e a dimensão da interrupção alimentaram entretanto especulações sobre a possibilidade de terem sido afectados registos de clientes, incluindo números de telefone e outros dados armazenados nos sistemas da operadora.

Até ao momento, não há confirmação oficial de que bases de dados de clientes tenham sido apagadas ou que um número significativo de linhas telefónicas esteja em risco de ficar definitivamente inoperante.

A própria administração da Unitel afirmou que os dados sensíveis dos clientes não foram comprometidos. Qualquer informação em sentido contrário deve, por isso, ser tratada como hipótese ou alegação não confirmada enquanto não houver esclarecimento das autoridades competentes ou da própria operadora.

O processo de recuperação dos sistemas poderá, contudo, exigir tempo adicional, sobretudo porque a prioridade numa situação desta natureza passa por garantir que os sistemas são restaurados de forma segura, evitando uma nova intrusão.

Um problema que ultrapassa a Unitel

O episódio expôs também a forte dependência da economia angolana das infraestruturas digitais.

A interrupção da maior operadora móvel do país não afectou apenas chamadas telefónicas e acesso à Internet. Os efeitos fizeram-se sentir nas actividades comerciais, nos serviços empresariais e no funcionamento de diferentes soluções que dependem da conectividade e da integração entre sistemas.

A dimensão do impacto reacendeu igualmente o debate sobre a resiliência das infraestruturas digitais críticas de Angola e sobre a necessidade de as empresas e instituições disporem de sistemas alternativos capazes de manter serviços essenciais em caso de ataques ou falhas graves.

Especialistas e observadores têm defendido que a crescente digitalização da economia deve ser acompanhada por investimentos proporcionais em cibersegurança, redundância, recuperação de desastres e protecção de dados.

Unitel estreou-se na bolsa em plena crise

O ataque ocorreu na véspera da entrada da Unitel na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), uma operação que chegou a ser avaliada pela administração perante a dimensão da interrupção.

Apesar do incidente, a empresa manteve a cerimónia de estreia em bolsa, depois de avaliar a evolução dos trabalhos de recuperação da infraestrutura tecnológica.

O contraste entre a estreia da maior operadora de telecomunicações do país no mercado de capitais e um dos mais graves ataques informáticos registados contra a empresa tornou o episódio particularmente relevante para o sector empresarial angolano.

Cibersegurança ganha novo peso

O ataque à Unitel coloca novamente a cibersegurança no centro das preocupações das empresas angolanas.

Em 2024, a Agência de Protecção de Dados já havia sancionado a Unitel por incumprimento de medidas de segurança relacionadas com a protecção de dados pessoais, num processo diferente do actual. A decisão demonstra que a protecção das informações dos clientes e a segurança dos sistemas já constituíam uma preocupação regulatória antes do ataque desta semana.

A dimensão do actual incidente deverá, por isso, aumentar a pressão para que empresas que operam infraestruturas consideradas críticas reforcem os seus mecanismos de prevenção, detecção e recuperação de ataques cibernéticos.

Enquanto os técnicos continuam a trabalhar na estabilização dos sistemas, milhares de cidadãos permanecem dependentes do dinheiro físico para realizar operações que, até há poucos dias, eram efectuadas de forma electrónica.

As filas nos ATM, a redução do movimento em algumas bombas de combustível e as dificuldades nos pagamentos com cartão constituem, assim, os sinais mais visíveis de uma crise tecnológica que começou numa operadora de telecomunicações, mas que rapidamente revelou a profunda interdependência entre telecomunicações, banca, comércio e vida quotidiana em Angola.

O regresso à normalidade dependerá agora da conclusão segura da recuperação dos sistemas e dos esclarecimentos que deverão surgir das investigações sobre a origem, extensão e consequências do ataque.

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