Quinta-feira, 23 de Maio, 2024

Brasil procura financiamento na China mas recusa incremento do yuan

Uma alta funcionária do banco de desenvolvimento do Brasil disse hoje à Lusa que a China pode ajudar o seu país a obter financiamento em termos competitivos, mas recusou o incremento da moeda chinesa nas trocas comerciais e investimento.

“Nós temos conseguido financiamento em dólares [junto de entidades chinesas], mas em grande parte dos projetos precisamos de financiamento em [reais brasileiros]”, disse Natália Dias, diretora para o mercado de capitais do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social do Brasil (BNDES).

“As conversas que tenho tido com as entidades chinesas é se eles conseguem, usando o ‘rating’ de crédito que têm, que é melhor que o nosso, abrir linhas com ‘swap cambial’ em reais”, explicou.

Aquele mecanismo permitiria trocar duas moedas à taxa de câmbio em vigor à data da contratação, cobrindo o risco cambial. A moeda de base, no entanto, continuaria a ser o dólar norte-americano.

Em fevereiro passado, os bancos centrais do Brasil e da China assinaram um memorando de entendimento para o estabelecimento de acordos de compensação do yuan, como parte dos esforços de Pequim para internacionalizar a moeda chinesa.

O estabelecimento desses arranjos “vai beneficiar as transações transfronteiriças e promover ainda mais o comércio bilateral e a facilitação de investimentos”, disse então, em comunicado, o Banco Popular da China (banco central).

A China tem tentado internacionalizar o yuan desde 2009, visando reduzir a dependência do dólar em acordos comerciais e de investimento e desafiar o papel da moeda norte-americana como a principal moeda de reserva do mundo. Isto tornou-se mais urgente à medida que fricções políticas e uma prolongada guerra comercial e tecnológica entre Pequim e Washington resultaram na imposição de sanções contra várias entidades chinesas.

“Eu não vi nenhuma discussão nesse sentido, de estarmos a usar o yuan em transações entre o Brasil e a China”, explicou Natália Dias à agência Lusa.

“O fluxo continua a ser realizado em dólares, mas nós temos tentado discutir com eles formas de conseguir levantar recursos em [reais brasileiros] ou de compensar a variação cambial nas linhas em dólar que eles abrem”.

A responsável recusou ainda que esteja a ser estudado o acesso ao mercado de capitais chinês, nomeadamente através da emissão de dívida em yuan.

“Nós temos falado mais é no mercado bancário, em linhas bilaterais, com os bancos de desenvolvimento chineses, e essas linhas são maioritariamente em dólares”, realçou.

Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, com o comércio bilateral a passar de nove mil milhões de dólares (8,3 mil milhões de euros), em 2004, para 150 mil milhões (139 mil milhões de euros), em 2022. O Brasil desempenha, em particular, um papel importante na segurança alimentar da China, compondo mais de 20% das importações agrícolas do país asiático.

Entre 2007 e 2020, a China investiu, no total, 66 mil milhões de dólares (61,8 mil milhões de euros) no Brasil.

Luiz Inácio Lula da Silva tinha previsto realizar esta semana uma visita à China, que foi entretanto adiada, após o Presidente do Brasil ter contraído uma pneumonia. Uma comitiva com centenas de empresários, além de governadores, senadores, deputados e ministros, encontra-se, no entanto, em Pequim, prosseguindo com a agenda original, que inclui a realização de um fórum empresarial, na quarta-feira, num hotel da capital chinesa.

Lusa

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