Domingo, 26 de Maio, 2024

América Latina, campo da batalha diplomática entre China e Taiwan

Parte da intensa guerra diplomática entre Taiwan e China é disputada na América Latina: Honduras é o último país que se afasta de Taipé para se vincular a Pequim, um revés para a ilha asiática que também mina a influência dos Estados Unidos na região.

Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen

O Paraguai será o próximo campo de batalha, já que realiza eleições presidenciais no final de abril. O candidato da oposição, Efraín Alegre, disse que, se vencer, vai reavaliar as relações com Taiwan.

Dos 13 Estados do mundo que mantêm relações com Taipé após a decisão de Honduras, sete são da América Latina e do Caribe: Guatemala, Belize, Paraguai, Haiti, São Cristóvão e Névis, Santa Lúcia e São Vicente e Granadinas.

Estão incluídos nessa lista o Vaticano, Suazilândia (África) e Ilhas Marshall, Nauru, Palau e Tuvalu (Pacífico).

A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, visitará Guatemala e Belize esta semana para tentar impedir que sigam os passos de Honduras e Costa Rica (2007), Panamá (2017), El Salvador (2018) e Nicarágua (2021), países que romperam com Taipé sob pressão chinesa.

“Estamos diante de uma recomposição geopolítica do mundo”, que “não é mais unipolar, mas multipolar”, e a China “é um dos polos imperiais que estão entrando na região, não só na América Central, mas em toda a América Latina”, disse à AFP a acadêmica hondurenha Zoila Madrid, recém-aposentada da Universidade Nacional.

Ela acredita que a decisão de Honduras é um golpe para Washington, que sempre viu o país como um fiel aliado.

“Honduras desempenha um papel não apenas econômico, mas geopolítico, porque os Estados Unidos sempre contaram com Honduras geopolítica e militarmente. Na verdade, Honduras tem sete bases militares” dos Estados Unidos, destaca Madrid.

Taipé põe mais ênfase, contudo, na “qualidade do que na quantidade” de suas relações diplomáticas, explica Sung Wen-ti, especialista em Estudos sobre Taiwan da Universidade Nacional Australiana.

“Uma parceria forte e confiável com outros países (como Estados Unidos, ou Japão) é mais importante do que olhar para o número de países que reconhecem Taiwan formalmente”, disse o analista antes de Tegucigalpa romper relações com a ilha.

– Único na América do Sul –

A América Latina tem sido palco da disputa diplomática entre China e Taiwan desde que se separaram em 1949, após a guerra civil chinesa.

Pequim considera a ilha de 23 milhões de habitantes como uma província rebelde, a qual espera um dia recuperar, mesmo que à força. E, sob o princípio “Uma única China”, não permite que nenhum país mantenha, simultaneamente, relações diplomáticas com Taipé.

O próximo a enfrentar esse dilema será o Paraguai, único da América do Sul a reconhecer a ilha.

Mas “é muito difícil que o Paraguai venha a estabelecer relações diplomáticas com a China, embora não se possa ignorar que há uma pressão política muito grande”, e “o campo é fértil a favor da China”, disse à AFP o ex-chanceler paraguaio Eladio Loizaga.

O analista Héctor Cristaldo faz uma análise similar. “Não acho que a oposição, se vencer as eleições, consiga mudar o laço diplomático que se mantém com Taiwan. Não imagino um presidente do Paraguai em um cenário como esse”, comentou.

– “Faça o que eu digo, não o que eu faço” –

O sociólogo e colunista hondurenho Pablo Carías destaca a contradição de que Washington critique os países que estão ligados à China, apesar de também ter relações diplomáticas e econômicas com Pequim.

“Os Estados Unidos recomendam que não estabeleçamos relações com a China, mas eles têm relações”, o que significa que segue a política de “fazer o que eu digo, mas não o que eu faço”, afirma Carías, em conversa com a AFP.

Apesar do revés em Honduras, Taipé tem, hoje, maior “visibilidade internacional” do que antes, sendo mencionada em declarações conjuntas do G7 e de outros fóruns multilaterais, disse Sung Wen-ti.

“É compreensível que Taiwan se sinta um pouco triste” com a decisão de Honduras, mas a ilha “dá prioridade” às relações com os países “líderes” do mundo, como Estados Unidos, Japão, Austrália e Europa, acrescentou.

Além disso, “Taiwan tem desempenhado um papel cada vez mais proeminente nesta rivalidade estratégica global entre Estados Unidos e China. Taiwan é, até hoje, a mais sólida democracia liberal no mundo de língua chinesa” e “tem uma importância simbólica muito forte nessa narrativa, ou alinhamento baseado em valores, entre os EUA e a China”, completa Sung.

AFP

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