Domingo, 26 de Maio, 2024

Milhares saem à rua em Maputo para último adeus ao “‘rapper’ do povo” em Moçambique”

Milhares de pessoas saíram hoje à rua em Maputo para acompanhar o cortejo fúnebre do músico moçambicano Azagaia e até houve quem pedisse uma “estátua” para aquele que é considerado o “‘rapper’ do povo em Moçambique”.

“Todo herói merece uma estátua […] nós somos o povo que ele queria no poder e, por isso, queremos uma estátua do Azagaia numa avenida de Moçambique”, disse à Lusa Mike Sérgio, um dos fãs do ‘rapper’ que acompanhou o cortejo fúnebre de Azagaia da Praça da Independência até ao cemitério de Muchafutene, a 25 quilómetros do centro da cidade.

Azagaia, nome artístico de Edson da Luz, morreu na quinta-feira, aos 38 anos, em sua casa, após uma crise de epilepsia, segundo a família do artista.

O funeral foi antecedido por um velório nos Paços do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, onde milhares de pessoas, principalmente jovens, juntaram-se, a partir das 06:00 locais (04:00 em Luanda), à porta do edifício, localizado na Praça da Independência, para enaltecer o legado de Azagaia.

“O que Azagaia deixa como legado é a preservação das artes e cultura como fatores de coesão social, respeitando a nossa diversidade cultural e criativa”, declarou a ministra da Cultura de Moçambique, Eldevina Materula, no seu discurso no Conselho Municipal de Maputo.

Após o velório, os restos mortais foram levados ao cemitério de Michafutene, na província de Maputo, sempre aplaudido por centenas de pessoas que se posicionaram em vários pontos da Avenida de Moçambique para prestar a última homenagem ao “‘rapper’ do povo”.

“É uma grande perda, não só para o hip-hop moçambicano, mas também para a lusofonia”, declarou o ‘rapper’ moçambicano Duas Caras, reconhecido, tal como Azagaia, como uma referência da música rap em Moçambique.

“Desde cedo, Azagaia foi um observador atento à realidade social e isso inspirou o seu caráter interventivo e combativo perante tudo aquilo que apoquenta a sociedade”, lembrou o ativista moçambicano Adriano Nuvunga, numa mensagem em nome da sociedade civil moçambicana.

A caravana que levou o corpo do músico tinha definido um trajeto que passava pelo Ministério da Defesa e pela residência oficial do chefe de Estado na Avenida Julius Nyerere, mas um contingente policial fortemente armado e com veículos blindados impediu o percurso, obrigando o cortejo a usar uma outra via.

Mesmo assim, no percurso alternativo, entre as avenidas 25 de Setembro e de Moçambique, Azagaia foi acompanhado sempre por uma multidão, o mesmo povo pelo qual tanto lutou durante os cerca de 20 anos de rap de intervenção social.

“É um artista que muito fez pelo país”, lembrou Onésio Agostinho, um outro fã que acompanhou a cerimónia.

Entoando as músicas mais populares de Azagaia, entre “Povo no poder”, “Cães de Raça” ou “Mentiras da Verdade”, a multidão foi crescendo com a saída da caravana do centro da cidade em direção aos bairros periféricos de Maputo, onde sobretudo comerciantes informais e estudantes esperavam para homenagear o “mano Azagaia”.

“Não estamos tristes, temos alguma esperança no tanto legado que ele deixou para nós. Temos esperança que as coisas vão mudar”, frisou à Lusa Donalda Cumbe, uma jovem fã de Azagaia no meio da caravana.

“Mano Azagaia”, como foi carinhosamente apelidado, ficou célebre pela crítica aberta à governação em Moçambique e por dar voz aos problemas da população, de tal forma que em 2008 chegou a ser questionado pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

As rimas não passavam na rádio e televisão públicas e os deputados da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder desde a independência, apontavam-no como intérprete da oposição.

O artista tem estado a ser homenageado em vários pontos do país, principalmente pela juventude, que vai promover, no dia 18, uma marcha pacífica pelo centro da capital para celebrar a obra daquele que era conhecido como o “‘rapper’ do povo”.

Lusa

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