Composto de 47 Estados, o Conselho de Direitos Humanos da ONU decidiu, nesta sexta-feira (17), criar uma comissão internacional de especialistas para investigar e reunir provas sobre os abusos cometidos no contexto do conflito na Etiópia.

Proposta pela União Europeia, uma resolução nesse sentido foi aprovada em sessão especial com 21 votos a favor, 15 contra (incluindo a China e muitos países africanos) e 11 abstenções.
O embaixador da Etiópia na ONU em Genebra, Zenebe Kebede, chamou de “infundadas” as acusações contra seu país, garantindo que a decisão adotada “agravará a situação no terreno”.
Mais cedo, durante esta reunião extraordinária, a ONU havia advertido que, em meio às contínuas violações dos direitos humanos por parte dos envolvidos no conflito na Etiópia, o país corre o risco de se afundar numa “violência generalizada” com grandes consequências para a região.
O diplomata etíope reagiu imediatamente a essa declaração, durante os debates, e acusou o Conselho de Direitos Humanos de “neocolonialismo”.
“O multilateralismo é, mais uma vez, tomado como refém por uma mentalidade neocolonialista. A Etiópia é tomada como alvo, com o dedo do Conselho de Direitos Humanos apontado para ela, por ter defendido um governo eleito de maneira democrática, a paz e o futuro de seu povo”, declarou o embaixador Kebede.
Para a vice-alta comissária para os Direitos Humanos, Nada Al Nashif, “o risco de aumento dos níveis de ódio, violência e discriminação é muito elevado e pode levar a uma violência generalizada”.
Segundo ela, “isso pode ter grandes consequências não apenas para milhões de pessoas na Etiópia, mas também em toda região”.
Al Nashif denunciou que a ONU continua a receber “relatórios confiáveis de violações graves dos direitos humanos cometidas por todas as partes” envolvidas no conflito.
O conflito no norte da Etiópia começou em novembro de 2020, depois que seu primeiro-ministro, Abiy Ahmed, enviou tropas do Exército para expulsar os rebeldes da Frente de Libertação do Povo do Tigray (TPLF, na sigla em inglês). A medida teria sido tomada em represália aos ataques, por parte deste grupo, às bases militares.
Em junho deste ano, os rebeldes recapturaram a maior parte do Tigray e avançaram para as regiões vizinhas de Afar e Amhara.
Em 25 de novembro, o primeiro-ministro anunciou que estava liderando uma contraofensiva e que várias cidades haviam sido recuperadas.
Visita de Estado da Presidente da Etiópia a Angola
A Presidente da Etiópia, Sahle-work Zewde, efectou esta sexta-feira uma visita de Estado a Angola por algumas horas, durante o qual teve um encontro com o Presidente João Lourenço, em que o informou sobre a situação político-militar do seu país.
No fim da sua visita ao país, no Aeroporto 4 de Fevereiro, Sahle-work Zewde disse a imprensa que veio falar com o Presidente João Lourenço, porque entende que Angola é o Estado da região que melhor compreende a situação do seu país, por já ter passado por algo semelhante. Realçando que os problemas do continente devem ter soluções africanas.
A Presidente etíope disse que o encontro com o homólogo angolano também serviu para fortalecer os laços entre os dois países.
– Mecanismo ‘urgente e necessário’
O conflito deixou vários milhares de mortos, mais de dois milhões de deslocados e colocou centenas de milhares de etíopes em risco de fome aguda, segundo a ONU.
Nesta reunião em Genebra solicitada pela União Europeia (UE) com o apoio de dezenas de países, incluindo os Estados Unidos, os 47 membros do Conselho estudam a proposta de nomear investigadores que vão apurar as possíveis violações dos direitos humanos no âmbito desta guerra.
“A gravidade e a amplitude das violações e das atrocidades cometidas contra civis por todas as partes são inaceitáveis. (…) A criação de um mecanismo de investigação internacional independente é urgente e necessária”, afirmou a embaixadora eslovena no órgão, Anita Pipan, em nome da UE.
Pela voz do representante dos Camarões, o embaixador Salomon Eheth, os países africanos deram, por sua vez, seu apoio à Etiópia, alegando que um mecanismo de investigação dessa natureza “é contraproducente e suscetível de exacerbar as tensões”.
Na quinta-feira (16), as ONGs Anistia Internacional e Human Rights Watch (HRW) alertaram sobre novas violências étnicas ligadas ao conflito na Etiópia. De acordo com ambas as organizações, combatentes da região de Amhara, aliados do Exército federal, detêm e matam civis do Tigray.
Nos últimos dois meses, as duas ONGs de defesa dos direitos humanos relataram casos de detenção, tortura e situações de fome forçada de civis, incluindo adolescentes e idosos, no oeste do Tigray.
Guardião/AFP

